Abraçar
O que é um abraço para ti? O que sentes quando abraças?
Para mim, é um mundo. É estar no aconchego dos braços dos meus. Amigos e família. Até colegas tenho saudades de abraçar. Nunca dei muito valor aos abraços.
Tirando uma ou outra pessoa, raramente dei abraços a alguém. Não gostava do contacto próximo.
Sabem o que é engraçado? Consigo imaginar perfeitamente todas as pessoas a quem quero dar um abraço. Umas falo todos os dias, outras fazem parte dos meus pensamentos e já não tenho oportunidade de as abraçar. Nunca mais. E custa. Saber que perdemos a oportunidade de abraçar alguém que já não está cá, faz-me perceber que tenho de abraçar quem me ama o mais depressa e o mais forte que eu consiga. Quer seja família, amigos, colegas....
Não interessa o tipo de relação. Importa sim o quanto gostamos das pessoas. O quanto nos preocupamos com elas. O quanto gostamos delas.
Dei por mim a sentir um aperto no coração quando voltei a ver amigos que já não via há quatro meses. Senti muito mais quando vi uma das minhas maiores amigas e não a pude abraçar. E custou... custou tanto quando arrancarem uma parte de mim, porque é a parte dos afetos que nos estão a arrancar sem dó nem piedade. E este vírus veio fazer com que tenhamos noção do quanto gostamos. Do quanto cuidamos. Do quanto queremos aquelas pessoas.
E a minha avó... Não imaginam o quanto me custou vê-la a chorar por não me poder abraçar. O quanto me doeu esticar o meu braço para ela o poder agarrar com as mãos frágeis. Encostou a cabeça e foi esse o máximo contacto que teve comigo. Encostou a cabeça ao meu braço. A pessoa que me criou não me pode dar abraços porque pertence a um dos grupos de risco desta doença! E confesso que me afetou. Muito.
Sinto receio de não a poder abraçar mais, quando há uns meses eu não dava valor aos seus abraços!
É este o MAIOR ensinamento desta nova doença que nos acompanha. Sentir afeto. Sentir como já não sentíamos há anos. Ensinou-me o desejo que tenho de estar com os meus. De estar com amigos... Eu que sempre que podia tentava adiar cafés e jantaradas. Agora só quero estar com eles. Abraçar, ver, rir, amar os meus. E espero poder fazê-lo nos próximos tempos. Espero poder seguir a minha vida com esta nova realidade e conseguir aceitá-la.
E isto é triste. Estar com quem amamos sem nos podermos tocar. Abraçar. Beijar. E quando falo em beijar, falo nos milhões de beijos com que vou encher os meus irmãos quando estiver com eles. Os meus pais, os meus avós, os meus. Ponto final. Quero mostrar que gosto, que me importo, que os quero comigo. Mas não o posso fazer se estivermos afastados por dois metros. Custa começar a desconfinar. Custa não poder abraçar.
Bem sei que é para um bem maior, mas o que custa.... E estou a ficar tão emocional... Quem me viu e quem me vê.... A querer beijos e abraços. A querer contacto físico quando há uns meses o repelia...
Temos tanto a aprender... E quem previu que íamos aprender com esta doença que está a afetar o mundo? Eu não previ, mas é o que temos.
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